terça-feira

"NO AMPLO TERRITÓRIO DO PELOURINHO, HOMENS E MULHERES ENSINAM E estudam. Universidade vasta e vária, se estende e ramifica no Tabuão, nas Portas do Carmo e em Santo Antônio Além-do-Carmo, na Baixa dos Sapateiros, nos mercados, no Maciel, na Lapinha, no largo da Sé, no Tororó, na Barroquinha, nas Sete Portas e no Rio Vermelho, em todas as partes onde homens e mulheres trabalham os metais e as madeiras, utilizam ervas e raízes, misturam ritmos, passos e sangue; 

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Na Tenda dos Milagres, ladeira do Tabuão, 60, fica a reitoria dessa universidade popular. Lá está mestre Lídio Corró riscando milagres, movendo sombras mágicas, cavando tosca gravura na madeira; lá se encontra Pedro Archanjo, o reitor, quem sabe?  Curvados sobre velhos tipos gastos e caprichosa impressora, na oficina arcaica e paupérrima, compõem e imprimem um livro sobre o viver baiano.

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A obra de Pedro Archanjo, os quatro pequenos volumes sobre a vida popular baiana, publicados a duras penas, em edições mínimas, na precária oficina manual de seu amigo Lídio Corró, na ladeira do Tabuão, 

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Lá seguiu Rosália, de casa em casa, de loja em loja, de bar em bar, de castelo em castelo; atravessou as Portas do Carmo, desceu o Tabuão. Onde fora a oficina de Lídio Corró, agora um bazar de miudezas, fez uma pausa na caminhada


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 Seu amigo e compadre Lídio Corró, riscador 55 12589 - Tenda dos milagres de milagres, flautista e festeiro, montara diminuta tipografia na ladeira do Tabuão: imprimia volantes e anúncios para lojas da redondeza, para os cinemas da Baixa dos Sapateiros, compunha fascículos de trovadores, literatura de cordel vendida em mercados e feiras. 

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EM SOMBRAS SE DISSOLVE A LUZ DA TARDE; A LADEIRA DO TABUÃO, QUASE VAZIA, AINDA NÃO SE REFEZ DO CARNAVAL. Mestre Lídio Corró, debruçado sobre o papel, desenha e pinta, risca o milagre. Começou antes do entrudo, deve terminar ainda hoje. Apesar do cansaço e da preguiça, a fisionomia se abre num sorriso.

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Lídio desiste e assina a pintura do milagre. Uma tarja vermelha circunda o quadro, e com tinta branca o riscador escreve seu nome e o endereço: Mestre Lídio Corró, Tenda dos Milagres, Tabuão, número 60.

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Na espera dos tipos e da freguesia da Democrática, a Tenda dos Milagres se transformara no coração, no centro vital de toda aquela parte da cidade, onde se processa, potente e intensa, a vida popular, e que se estende da praça da Sé e do Terreiro de Jesus às Portas do Carmo e a Santo Antônio, englobando o Pelourinho, o Tabuão, o Maciel de Cima e o Maciel de Baixo, São Miguel e a Baixa dos Sapateiros com o  Mercado de Iansã (ou de Santa Bárbara à escolha e gosto do distinto).

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Trovadores, violeiros, repentistas, autores de pequenas brochuras, compostas e impressas na tipografia de mestre Lídio Corró e em outras desprovidas oficinas, vendem a cinquenta réis e a tostão o romance e a poesia no livre território. São poetas, panfletários, cronistas, moralistas. Noticiam e comentam a vida da cidade, pondo em rimas cada acontecido e as inventadas histórias, umas e outras de espantar

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Na oficina de Lídio Corró, passavam parte do tempo: os dois homens nas caixas dos tipos, com o pequeno ajudante. De quando em quando, um trago para esquentar o trabalho. Rosália acendia o fogo, cozinhava quitutes, de noite apareciam os amigos trazendo bebidas. Mais adiante, na esquina da ladeira, erguia-se o sobradão, já não existe. Da mansarda, no alto, viam a aurora surgir sobre o cais, os navios e os saveiros. Pelos vidros rotos da janela penetravam a chuva, a brisa do mar, a lua amarela, as estrelas. Morriam os ais de amor nas dobras da manhã. Pedro Archanjo, um retado na cama, e que delicadeza! Já não existe o sobrado, a mansarda, a janela sobre o mar.

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 Ali, na tacanha oficina, foram compostos e impressos três dos quatro volumes do ignorado mestre, todos de péssima qualidade gráfica.

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Na noite insone da oficina, no suor dos braços, vagarosa geme a máquina impressora sobre o papel e os tipos. Salta o aprendiz Tadeu do sono e do cansaço, ao ver o papel coberto de letras impressas, as primeiras páginas, a tinta fresca e seu olor. 

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OS POETAS POPULARES, SOBRETUDO OS FREGUESES DA OFICINA DE LÍDIO CORRÓ, não perderam a ocasião e glosaram a pendência entre os catedráticos e mestre Archanjo, assunto de primeira:

Deu-se grande alteração 
No Terreiro de Jesus 

Uns seis ou sete folhetos pelo menos foram publicados no decorrer dos anos, comentando os acontecimentos. 

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Várias vezes fora à Tenda dos Milagres: já não a conheceu ruidosa e boêmia praça de dança e canto, agora modesta e movimentada oficina gráfica onde à noite os principais e os venerandos se reuniam para discutir de um tudo. 

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Devendo os olhos da cara, sem qualquer perspectiva de restaurar a oficina, com urgência de dinheiro, mestre Lídio vendeu as máquinas e as sobras de tipos quase a preço de ferro-velho. 

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ExU AMADO, abrindo caminho, JORGE, em Tenda dos Milagres

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