quarta-feira

1

Manuel Raimundo Querinotinha escrito num papel, muito bem vincado, passado por debaixo da oficina tipográfica. Eram tantos personagens a essa altura, mas a grande protagonista era a Bahia Velha, era a Bahia Gráfica. 


2

Nilo sentou no gelo baiano segurando suas gravuras com uma das mãos e enxugando o suor com a outra. Oferecia os cartazes a todos que subiam pelo plano inclinado, mas, segundo ele, tava tudo fraco, ninguém tinha dinheiro. De longe, o homem negro, com uma espessa barba grisalha, me lembrava Arcanjo e seu universo gráfico popular. 

3

Eu coloquei a senha uma vez. Duas. Três. Quatro. Dez. A mensagem era a mesma: senha incorreta. Eu digitava com certeza a senha e a cada envio tornava o impedimento. Foi daí que surgiu o primeiro temor: estavam me hackeando. Invadiram meu email, trocaram a minha senha, eu pensava já em perseguição política em pleno 2016. E o que Manuel Querino, Pedro Arcanjo, Nina Rodrigues, Lídio Corró, João Pará, o que ligava toda essa gente? 

"A escrita era perigosa porque diminuia o poder da mente, oferecendo aos seres humanos uma alma petrificada, uma caricatura da mente, uma memória mineral." 

From Internet To Gutenberg,
Umberto Eco

http://www.inf.ufsc.br/~jbosco/InternetPort.html

"É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza


da palavra escrita."

Psicologia da Composição, 
João Cabral de Melo Neto
From Internet To Gutenberg 
Umberto Eco

http://www.inf.ufsc.br/~jbosco/InternetPort.html

Marshall McLuhan - A Galaxia de Gutenberg


https://pt.scribd.com/doc/89110615/Marshall-McLuhan-A-Galaxia-de-Gutenberg


terça-feira

título possíveis (conversas de daniel e camilo)

percursos no tempo de uma bahia gráfica

P A N E S e pânicos da memória ram

memórias em pane.


no notificações. 
nou notificações.



BAHIAGRÁFICA 
               
                ficções.












quarta-feira

remix

A materialização das letras em metal limitou drasticamente os caprichos da estética da letra manuscrita, mas também anulou as variações (e os erros) dos copistas. Em vez de manu-scritos e decali-grafia, passamos a ter uma tipo-grafia


Johannes Gutenberg (~1400-1468)



Duas versões da morte,
Um só sujeito,
Leva no nome a insígnia Arcanjo
Narrativas contrassensuais

2:11:00 – filme tenda dos milagres (1977) Nelson Pereira dos Santos

EXTERNA

PASSEATA NA RUA, FAIXAS, HOMENS E MULHERES.

ao rés do chão, no suor feitiço do grito político das ruas,
era vargas, populismo à direita povo ao centro,
agoniza anônimo, recua discreto no meio fio ao som do hino nacional,
GRITO DE
_ GUERRA GUERRA GUERRA GUERRA GUERRA GUERRA GUERRA
As faixas empunham valentia e ufanismo, química explosiva
ÀS ARMAS E AO TRABALHO BRASILEIROS
VITÓRIA VARGAS
morre enfartado, num heroísmo invicto, mas indigno












00:11:58 - filme tenda dos milagres (1977) Nelson Pereira dos Santos

INTERNA

OS PERSONAGENS ENTRAM NO BREGA. MULHERES RIEM E CARREGAM MALAS.

- Minha filha, bota música, faz ele dançar! A bebida! Padrinho, bebida, também?
- Claro!

_ Aqui quem fala é o Repórter Esso, testemunha ocular da história
Interrupção do rala coxa, homens e mulheres a postos defronte o rádio
Ataque ao navio alemão,

- VIVA O BRASIL!! VIVA! BRASIL!! BRASIL!!! (todos)

- Vão matar tudo que é negro, judeu, árabe, mulato, chinês.... só vai ficar vivo quem for branco. 
- Deus que fez o povo, não pode matar todo mundo de vez! Tem que matar de um a um. E se matar, nasce mais gente, e cresce e se mistura e o filha da puta nenhum vai impedir


Ferve o rala coxa, decotadas e assanhados valseiam

CLOSE - PEDRO ARCANJO

Alheio, permanece isolado à mesa, como professor em gabinete
_ Tem razão meu camarada, ninguém pode acabar com a gente. Nunca. Nunca.
último pronunciamento,
último gole
morre enfartado, num heroísmo invicto, mas indigno








sábado

terça-feira

Lídio arranhou o pi, o atabaque que lhe era de direito, de posição, e lembrou do som reumático, gasguito, da vendida. Deu-lhe uma vontade doida de ter nas mãos fascículos recém-impressos, sentir o cheiro da tinta, qualquer coisa que pegasse o caminho e escoasse em mercados e feiras. uma notícia bombástica, uma ligação telefônica mafiosa, um segredo de estado.
mas naquele apagão, onde só restara a memória ram, não restavam nem feiras nem mercados, quanto mais volantes e cordéis. nem boca do inferno nem cuíca de santo amaro.
Lídio pensa em preparar uma remessa sigilosa, uma leva de livros e enfiar num navio cargueiro como uma garrafa que se joga no mar. Enquanto isso, do silêncio de sua matutagem, nascia em suas mãos uma pequena linha de batuque, possivelmente sampleado da memória do afoxé de algum carnaval.

Lídio Corró
tag/tenda 

No grande pátio se estabeleceu também

o samba de roda, aos sábados e domingos, e nele se exibe o negro Ajaiy, rival
de Lídio Corró no posto de embaixador de afoxé, mas único e absoluto na
roda de samba, seu ritmista principal, seu maior coreógrafo.
São vários os riscadores de milagres, a traçá-los no óleo, nas tintas de
água e cola, no lápis de cor.


*


À luz da lamparina escreverá

com sua letra miúda — se a dor se aquietar e permitir. Lembra-se de
seu compadre Corró, caído morto em cima do risco do milagre, um
laivo de sangue no canto da boca.

*

(Sobre Lídio Corró,
no quadro das comemorações do centenário de Archanjo, o ensaísta Valadares
elaborou meticuloso trabalho, digno de atenção e leitura: “Corró,
Archanjo e a Universidade do Tabuão”.) Ali, na tacanha oficina, foram
compostos e impressos três dos quatro volumes do ignorado
mestre, todos de péssima qualidade gráfica.

*


Um de seus livros, porém, teve editor responsável e tiragem de mil

exemplares, grande para a época e enorme para Archanjo, cujas edições
anteriores não ultrapassaram a casa das trezentas cópias, sendo que da última,
a dos importantíssimos Apontamentos sobre a mestiçagem das famílias
baianas, imprimiram-se apenas cento e quarenta e dois volumes, para
mais não dera o papel. Cento e quarenta e dois, tão poucos, suficientes no
entanto para provocar escândalo, horror e violência. Quando Corró obteve
outras resmas de papel e quis reiniciar a impressão, a polícia chegou.
A culinária baiana — Origens e preceitos mereceu melhor sorte.

*


A Embaixada Africana, o primeiro afoxé a vir disputar a preferência

e os aplausos na praça pública — enfrentando as Grandes Sociedades, a
todo-poderosa Cruz Vermelha, o monumental Congresso de Vulcano, os Fantoches da Euterpe, os Inocentes em Progresso —, saiu no ano de
1895, com Lídio Corró de embaixador, mestre de cerimônia, coreógrafo
sem igual.

*


Andaram ruas e ladeiras, ele lhe mostrou a Tenda dos Milagres de portas

fechadas. Lídio Corró, na véspera, esvaziara ao menos uma pipa na comemoração;
não ia acordar antes do meio da tarde. Então, com muitos gestos e
muito riso, ela lhe perguntou onde ficava sua moradia. Ali bem perto; mansarda
sobre o mar, com a lua e as estrelas pela noite.

*


O milagre foi famoso, digno de promessa e gratidão, gratidão que

Lídio Corró, artista do pincel, expressa sob encomenda, usando para
tanto sua tinta de cola e seu talento. Mas Lídio não pensa na grandeza da
graça concedida, na categoria do prodígio, do próprio quadro decorrem
seu sorriso e seu contentamento: a luz obtida, das cores e da composição
difícil, com as figuras, a fuga dos cavalos, o santo e a mata virgem. Gosta
da onça, sobretudo.

*


Quando tomou do pincel para retocar e concluir o milagre, Lídio

Corró, quarentão baixo e troncudo, mulato de viveza e de malícia, o fez
de má vontade. Na véspera bebera além de todas as medidas; ele e Budião
tinham perdido a conta no batuque em casa de Sabina. Lídio, a partir de
certo instante, de nada se recorda: de como terminou a festa e ele veio parar
na Tenda, quem o trouxe — quando acordou, quase às duas da tarde,
viu-se de roupa e de botinas no estrado onde dormia e derrubava quengas,
num cômodo ao fundo da oficina. Oficina e residência, ao mesmo
tempo, com cozinha, uma torneira para banho que dá gosto, e um pedaço
de quintal onde Rosa planta e colhe flores. Se Rosa de vez se decidisse,
ah! que jardim não cresceria ao toque de suas mãos! Lídio preparou
um café bem forte. Naquele Carnaval ninguém vira Rosa de Oxalá.

*


Riscando o milagre portentoso, Lídio deixa a imaginação correr:

quem sabe naquele mesmo instante estaria a família do diretor interino da
polícia a fazer promessa ao Senhor do Bonfim para lhe salvar vida e emprego,
e ainda caberia a ele, mestre Corró — embaixador do afoxé, secretário
de Zumbi, mestre-sala a comandar a dança —, pintar o doutor na cama,
verde de raiva e de impotência, o coração doente de sambas e cantigas
em nagô, um coração onde só cabiam a vaidade, a arrogância, o desprezo
pelo povo. Nunca se fizera troça tão benfeita, nunca se enfrentara com
tanto garbo e valentia as regras e as imposições dos poderosos. Quando
Archanjo — lendo o decreto no jornal, a proibição dos afoxés, do samba e
do batuque — lhe propôs a brincadeira, também ele, Corró, dissera: “É
impossível”.

*


Mas o fulano nem quis ouvir falar em outro; para ele só servia Lídio

Corró — seu nome de riscador chegara ao sul e ao sertão. De Ilhéus a
Cachoeira, de Belmonte e Feira de Santana, de Lençóis e até de Aracaju
e Maceió desembarcavam fregueses para a Tenda.

*


Na meia-luz do fim da tarde, ao roxo clarão crepuscular, mestre

Corró, sincero e comovido, admira o trabalho terminado: uma beleza.
Mais uma obra-prima a sair dessa oficina, da Tenda dos Milagres (se Rosa
consentisse, ele mudaria o nome para Tenda de Rosa e dos Milagres),
onde se esforça e luta um artista modesto mas competente em seu ofício.
E não somente nesse ofício de riscar milagres, nesta arte de pintar ex-
-votos: também em muitos outros, basta perguntar na rua quem é Lídio
Corró e quanta coisa inventa e realiza.

*


A meta de Corró: a Tipografia Democrática, na qual seu

Estêvão das Dores compunha e imprimia as histórias de cantadores, as
modinhas, os versos dos desafios, vasta literatura de cordel; as capas dos
folhetos eram gravuras de Lídio, cavadas na madeira.

*


No corte da madeira, no risco do milagre, no ai do boticão, na venda

de mezinhas, na lanterna mágica, mestre Lídio Corró ganha seu rico e
suado dinheirinho. Mas naquela mesma sala se discute e se decide sobre
um ror de coisas. Ali nascem as ideias, crescem em projetos e se realizam
nas ruas, nas festas, nos terreiros. Debatem-se assuntos relevantes, a sucessão
de mães e pais de santo, cantigas de fundamento, a condição mágica
das folhas, fórmulas de ebós e de feitiços. Ali se fundam ternos de
reis, afoxés de Carnaval, escolas de capoeira, acertam-se festas, comemorações
e tomam-se as medidas necessárias para garantir o êxito da lavagem
da igreja do Bonfim e do presente da mãe-d’água. A Tenda dos
Milagres é uma espécie de Senado, a reunir os notáveis da pobreza, assembleia
numerosa e essencial. Ali se encontram e dialogam ialorixás,
babalaôs, letrados, santeiros, cantadores, passistas, mestres de capoeira,
mestres de arte e ofícios, cada qual com seu merecimento.

*


Tinham apenas a noite para o trabalho no livro, pela manhã necessitavam

dos tipos, contados e gastos, e da impressora para as encomendas
normais: folhetos de trovadores, prospectos de lojas, armarinhos, armazéns.
No fim do mês, Corró devia pagar a prestação a Estêvão, dinheiro sagrado. Uma batalha contra o tempo e contra a pequena máquina manual:
reumática, rabugenta, caprichosa. Lídio Corró tratava-a de “minha
tia”, pedindo-lhe bênção e boa vontade, cooperação. Nessa noite
emperrara, estiveram a maior parte do tempo a consertá-la.

*

e Pedro Archanjo lê — lê ou sabe de memória? — a frase
inicial, seu clarim de guerra, sua palavra de ordem, resumo de seu saber,
sua verdade: “É mestiça a face do povo brasileiro e é mestiça a sua
cultura”.
Lídio Corró, um sentimental, sente um aperto no peito, ainda há de
morrer numa hora dessas, de emoção.

*

Volume de quase duzentas páginas, as letras do título
num luxo de tinta azul no centro da capa e, no alto, o nome do autor, em tipos que imitavam escrita manual, um itálico lindo, no dizer de mestre
Lídio Corró.

*



exu amado,


tenda dos milagres


JORGE.



segunda-feira



Conjunções cataclismáticas do canto, do vento e da umidade estacionaram a atmosfera pulsante, enlouquecidamente polifônica da Bahia num mergulho profundo rumo ao vazio. Um intervalo dolorido para os frenéticos da informação, doía não saber, não ver, não ler, não se informar. Doía feito fome, um jejum inesperado e involutário instaurou a era instantânea da desinformação generalizada.