Uma conjunção estratocósmica da era de aquário, faiscou meteoros inesperados na coordenada geográfica da Bahia de todos os santos. O céu fumegou um brilho esverdeado, cor de laser, rajadas de trovão atiçaram a cosmologia afrobahiana, falavam em manifestações de Iansã. Mas especialistas afirmaram com convicção científica, era um ponto de mutação flagrado na dissonância tonal do canto do Uiracurus, pássaros migratórios, viajantes do recôncavo ao reconvexo. Nessa encruzilhada visceral, entortaram no canto alguma nota mais ao leste, suas ondas geravam microscópicas interrupções em todas as outras ondas eletromagnéticas. Pane das torres de sinal às casas. Inesperadamente, um instante off line, justo quando o desfecho do embrolho político brasileiro parecia assinalar espasmos de esperança. Ocorrera de véspera a prisão do chefe que havia cunhado a quadrilha.
Mas aquele canto de nota entortada na direção do oriente, um som tão silencioso, impossível de se escutar, calou a ubiquidade, a era da simultaneidade. Alguns tentavam de todo jeito, aparelharem-se para ouvir o silencioso canto capaz de tamanha interrupção. Rumores suspeitavam, suas vibrações orientais geravam ínfimos redemoinhos, onde as ondas dos sinais eletromagnéticos - combustível contemporâneo da nossa era comunicacional - estacionavam numa espiral sem destino. Passaram a perseguir o pássaro, mas logo perceberam que seu vôo noturno e tamanho, uma miniatura de beija-flor, impediam a imediata captura, uma nova tecnologia haveria de ser desenvolvida, mas como? As telas dos computadores, smarthphones, ipad, iphones, tablets, acionavam apenas o arquivo estático das pastas da memória ram. Apesar de sua imponderável extensão, transmitia a sensação estagnada de um arquivo morto diante da suposta vitalidade da informação transitória, multidão comunicacional de tempos recentes.
As ondas eletromagnéticas antes condensadas em nuvens de sinal precipitavam-se em linhas de morte no zigue zague delirante dos redemoinhos estéreis, sem destino, apenas zonas de vibração intensiva, sem transferência nem conexão. Ilhotas perdidas nas tramas da rede pretérita, náufraga ela mesma das suas embarcações estacionárias.
*
Um alarme soa na zona das truculentas máquinas.
_ UAOORRRR UAOORRRR UAOORRRR UAOORRRR UAOORRRR, convoquem o técnico, não adianta avançar, elas não podem ser inseridas nas impressoras.
_ Outra composição, gritou com a mãos pingando graxa. Mais ácido.
_ Não firmam, não endurecem. É uma pasta, perdeu o ponto. É fluido.
As matrizes mal saíam da máquina e numa ligeireza atordoante derretiam feito gelo sob o sol apocalíptico do sertão. A sutil topografia tipográfica dos desníveis entre espaço positivo e negativo deformavam-se numa gelatinosa e informe mancha, um borrão sem texto nem forma, uma tela expressionista, mensagem a-semiótica. Suporte impossível da exatidão tipográfica.
A umidade gotejante e salgada transpirava de forma incrédula sobre a secagem das matrizes das impressões. As quatro matrizes da quadricromia CMYK - fonte capital da impressão modernizada - deformadas como um chiclete mascado, cuspido, resíduo da força das mandíbulas. Incapazes na comunicação de qualquer mensagem com precisão, pois restaram apenas como indício de gesto.
As matrizes da impressão são a super engrenagem do parque industrial das gráficas. A peça chave, o segredo do cofre, a senha, o combustível, o código, a corrente, o chip, o suporte significante, a peneira da tinta, o filtro da mensagem, a guia da impressão. Alicerce elementar da reprodutibilidade contemporânea, cuja falha soou como sintoma alarmante da esterilidade do sistema.
Sobre a bandeja de saída, a impressora cuspia como de costume as placas matriz, uma atrás da outra. Mas estranhamente os contornos precisos das formas, as minúcias da letra, a lógica da informação, desfigurava-se num bloco estrangulado, tipo uma cicatriz de queimadura encarquilhada.
_ Sem as matrizes é impossível reproduzir. Fatalista e absolutamente inegável a constatação do operador.
O gerente chegou no galpão com a cabeça de coruja, olhava pra tantos lados quanto o pescoço admitia e mesmo assim forjava um semblante incrédulo. Diante da montanha de matrizes inócuas comunicou:
_ A pane não é só nossa, não se sabe até onde. O derretimento das matrizes é um fenômeno da vizinhança toda, talvez da cidade. Ainda não sabemos, aqui não há sinal nem matriz. Estamos completamente órfãos da transmissão do sinal, o grande pai e da reprodução da matriz, a grande mãe.
_ E o jornal de amanhã, ao menos ele temos de finalizar, só imprimimos a capa.
_ Levem pro Tabuão, nas velhas tipografias da cidade velha, da velha Bahia.
A voz grave veio de dentro de uma das cabines de comando das máquinas, era Lídio Coró, o técnico impressor de quem jamais se ouvira uma palavra. Ele ali, mudo, encapsulado, finalmente se comunicou, uma fala oracular rangeu das entranhas da máquina. O visor da cabine transparecia apenas o topo da sua cabeça, que parecia um botão redondo e branco, grisalho, mas não, era a cabeça de Lídio, aquele corpo, máquina, impressora.
_ Onde?
_ Pra ladeira do Tabuão. Sem detalhar, Lídio apanhou as provas originais do jornal como um sequestrador e arremeteu num passo convicto.
*
- Correndo de que, ômi? Tá fugindo?
Desde que saíra da cabine, desparafusou aquele semblante aparelhado, o corpo todo parecia lubrificado pela ladeira. Mas houve um estanhamento, uns o notavam velho demais, outros demonstravam indiferença, pareciam ressentidos.
_ tu não morreu não? Disseram que tinha virado....
Os sentados ao pé da porta, os carregadores, as famigeradas, os donos do pedaço, os que deram de ombros, os que olharam de rabo de olho, pareciam todos inebriados naquela umidade que abatia no corpo uma languidez, hereges diante da aparição do mestre Lídio Corró.
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