terça-feira

Lídio Corró
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No grande pátio se estabeleceu também

o samba de roda, aos sábados e domingos, e nele se exibe o negro Ajaiy, rival
de Lídio Corró no posto de embaixador de afoxé, mas único e absoluto na
roda de samba, seu ritmista principal, seu maior coreógrafo.
São vários os riscadores de milagres, a traçá-los no óleo, nas tintas de
água e cola, no lápis de cor.


*


À luz da lamparina escreverá

com sua letra miúda — se a dor se aquietar e permitir. Lembra-se de
seu compadre Corró, caído morto em cima do risco do milagre, um
laivo de sangue no canto da boca.

*

(Sobre Lídio Corró,
no quadro das comemorações do centenário de Archanjo, o ensaísta Valadares
elaborou meticuloso trabalho, digno de atenção e leitura: “Corró,
Archanjo e a Universidade do Tabuão”.) Ali, na tacanha oficina, foram
compostos e impressos três dos quatro volumes do ignorado
mestre, todos de péssima qualidade gráfica.

*


Um de seus livros, porém, teve editor responsável e tiragem de mil

exemplares, grande para a época e enorme para Archanjo, cujas edições
anteriores não ultrapassaram a casa das trezentas cópias, sendo que da última,
a dos importantíssimos Apontamentos sobre a mestiçagem das famílias
baianas, imprimiram-se apenas cento e quarenta e dois volumes, para
mais não dera o papel. Cento e quarenta e dois, tão poucos, suficientes no
entanto para provocar escândalo, horror e violência. Quando Corró obteve
outras resmas de papel e quis reiniciar a impressão, a polícia chegou.
A culinária baiana — Origens e preceitos mereceu melhor sorte.

*


A Embaixada Africana, o primeiro afoxé a vir disputar a preferência

e os aplausos na praça pública — enfrentando as Grandes Sociedades, a
todo-poderosa Cruz Vermelha, o monumental Congresso de Vulcano, os Fantoches da Euterpe, os Inocentes em Progresso —, saiu no ano de
1895, com Lídio Corró de embaixador, mestre de cerimônia, coreógrafo
sem igual.

*


Andaram ruas e ladeiras, ele lhe mostrou a Tenda dos Milagres de portas

fechadas. Lídio Corró, na véspera, esvaziara ao menos uma pipa na comemoração;
não ia acordar antes do meio da tarde. Então, com muitos gestos e
muito riso, ela lhe perguntou onde ficava sua moradia. Ali bem perto; mansarda
sobre o mar, com a lua e as estrelas pela noite.

*


O milagre foi famoso, digno de promessa e gratidão, gratidão que

Lídio Corró, artista do pincel, expressa sob encomenda, usando para
tanto sua tinta de cola e seu talento. Mas Lídio não pensa na grandeza da
graça concedida, na categoria do prodígio, do próprio quadro decorrem
seu sorriso e seu contentamento: a luz obtida, das cores e da composição
difícil, com as figuras, a fuga dos cavalos, o santo e a mata virgem. Gosta
da onça, sobretudo.

*


Quando tomou do pincel para retocar e concluir o milagre, Lídio

Corró, quarentão baixo e troncudo, mulato de viveza e de malícia, o fez
de má vontade. Na véspera bebera além de todas as medidas; ele e Budião
tinham perdido a conta no batuque em casa de Sabina. Lídio, a partir de
certo instante, de nada se recorda: de como terminou a festa e ele veio parar
na Tenda, quem o trouxe — quando acordou, quase às duas da tarde,
viu-se de roupa e de botinas no estrado onde dormia e derrubava quengas,
num cômodo ao fundo da oficina. Oficina e residência, ao mesmo
tempo, com cozinha, uma torneira para banho que dá gosto, e um pedaço
de quintal onde Rosa planta e colhe flores. Se Rosa de vez se decidisse,
ah! que jardim não cresceria ao toque de suas mãos! Lídio preparou
um café bem forte. Naquele Carnaval ninguém vira Rosa de Oxalá.

*


Riscando o milagre portentoso, Lídio deixa a imaginação correr:

quem sabe naquele mesmo instante estaria a família do diretor interino da
polícia a fazer promessa ao Senhor do Bonfim para lhe salvar vida e emprego,
e ainda caberia a ele, mestre Corró — embaixador do afoxé, secretário
de Zumbi, mestre-sala a comandar a dança —, pintar o doutor na cama,
verde de raiva e de impotência, o coração doente de sambas e cantigas
em nagô, um coração onde só cabiam a vaidade, a arrogância, o desprezo
pelo povo. Nunca se fizera troça tão benfeita, nunca se enfrentara com
tanto garbo e valentia as regras e as imposições dos poderosos. Quando
Archanjo — lendo o decreto no jornal, a proibição dos afoxés, do samba e
do batuque — lhe propôs a brincadeira, também ele, Corró, dissera: “É
impossível”.

*


Mas o fulano nem quis ouvir falar em outro; para ele só servia Lídio

Corró — seu nome de riscador chegara ao sul e ao sertão. De Ilhéus a
Cachoeira, de Belmonte e Feira de Santana, de Lençóis e até de Aracaju
e Maceió desembarcavam fregueses para a Tenda.

*


Na meia-luz do fim da tarde, ao roxo clarão crepuscular, mestre

Corró, sincero e comovido, admira o trabalho terminado: uma beleza.
Mais uma obra-prima a sair dessa oficina, da Tenda dos Milagres (se Rosa
consentisse, ele mudaria o nome para Tenda de Rosa e dos Milagres),
onde se esforça e luta um artista modesto mas competente em seu ofício.
E não somente nesse ofício de riscar milagres, nesta arte de pintar ex-
-votos: também em muitos outros, basta perguntar na rua quem é Lídio
Corró e quanta coisa inventa e realiza.

*


A meta de Corró: a Tipografia Democrática, na qual seu

Estêvão das Dores compunha e imprimia as histórias de cantadores, as
modinhas, os versos dos desafios, vasta literatura de cordel; as capas dos
folhetos eram gravuras de Lídio, cavadas na madeira.

*


No corte da madeira, no risco do milagre, no ai do boticão, na venda

de mezinhas, na lanterna mágica, mestre Lídio Corró ganha seu rico e
suado dinheirinho. Mas naquela mesma sala se discute e se decide sobre
um ror de coisas. Ali nascem as ideias, crescem em projetos e se realizam
nas ruas, nas festas, nos terreiros. Debatem-se assuntos relevantes, a sucessão
de mães e pais de santo, cantigas de fundamento, a condição mágica
das folhas, fórmulas de ebós e de feitiços. Ali se fundam ternos de
reis, afoxés de Carnaval, escolas de capoeira, acertam-se festas, comemorações
e tomam-se as medidas necessárias para garantir o êxito da lavagem
da igreja do Bonfim e do presente da mãe-d’água. A Tenda dos
Milagres é uma espécie de Senado, a reunir os notáveis da pobreza, assembleia
numerosa e essencial. Ali se encontram e dialogam ialorixás,
babalaôs, letrados, santeiros, cantadores, passistas, mestres de capoeira,
mestres de arte e ofícios, cada qual com seu merecimento.

*


Tinham apenas a noite para o trabalho no livro, pela manhã necessitavam

dos tipos, contados e gastos, e da impressora para as encomendas
normais: folhetos de trovadores, prospectos de lojas, armarinhos, armazéns.
No fim do mês, Corró devia pagar a prestação a Estêvão, dinheiro sagrado. Uma batalha contra o tempo e contra a pequena máquina manual:
reumática, rabugenta, caprichosa. Lídio Corró tratava-a de “minha
tia”, pedindo-lhe bênção e boa vontade, cooperação. Nessa noite
emperrara, estiveram a maior parte do tempo a consertá-la.

*

e Pedro Archanjo lê — lê ou sabe de memória? — a frase
inicial, seu clarim de guerra, sua palavra de ordem, resumo de seu saber,
sua verdade: “É mestiça a face do povo brasileiro e é mestiça a sua
cultura”.
Lídio Corró, um sentimental, sente um aperto no peito, ainda há de
morrer numa hora dessas, de emoção.

*

Volume de quase duzentas páginas, as letras do título
num luxo de tinta azul no centro da capa e, no alto, o nome do autor, em tipos que imitavam escrita manual, um itálico lindo, no dizer de mestre
Lídio Corró.

*



exu amado,


tenda dos milagres


JORGE.



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