Reencontrar a matriz, apalpar as miudezas de chumbo, as jóias de Gutenberg, mito ourives do alfabeto. Mas Lídio Corró regurgitou na boca a memória ácida da venda, aquela sentença mortal da universidade popular do tabuão, sepulcro do gozo de redigir, imprimir, romancear, cordelizar, contar.
Vendida.
Voz passiva, ela vendida, no feminino. A palavra manuscrita com letra abjeta, fixada sobre seu vultuoso e revolucionário corpo. Aquele arrependimento último de não maquiar o cadáver, lhe vestir de gala e cobrir de flores. Porque não imprimira na tipografia sua sentença VENDIDA como último suspiro? Quanta dignidade haveria em ler vendida com a B-42, preciosa invenção de Gutemberg.
O pensamento remorso de Lídio Corró. Aquele molho de chaves fundidas desembolsaram trêmulos gestos, a fechadura enguiçada, um tranco, outro golpe, finalmente o gemido do abrir da porta.
- Essa pane de hoje, mestre. Seu retorno inesperado, eles lá embaixo estão céticos, não creem mais na nossa imprensa. A cidade baixa, a cidade alta, quais caixas se abrirão nessa reviravolta?
- O velho tabuão, nossa universidade, não importa se não creem. Essa, agora, é a única fonte. As fechaduras profundas do velho tabuão ....
Não pôde concluir. Enquanto falava, abria as arestas empoeiradas da prensa, revolvia os tipos fundidos, linguotes, entreletras, amontoados como um alfabeto anárquico. Ali, no enclave entre dois eixos da máquina, um ninho, de onde um Uirapuru colossal revoou desalojado, rumou à janela. Pousou no parapeito, abriu as asas e saltou numa queda estranha ao pássaro, um movimento suicida rumo ao Tabuão.
A fala interrompida, o susto, o remorso, o chumbo na boca, foi quando uma mão tocou seu ombro pelas costas. Segurando dois ovos do ninho abandonado, virou-se e estatelou na presença de Teodoro e Arlindo. A coorporação dos mestres forjou-se ali ao pé do ninho e de mestre Lídio. Ele, como um guerreiro da imprensa arremessou os ovos contra a tipografia e deu início ao ritual do silêncio. Todos instantaneamente engrenados na tipografia, trabalhavam de bico fechado, a única narrativa sobrevinha dos originais do jornal do dia seguinte.
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